sábado, 17 de outubro de 2009

Feliz Aniversário Margô

Coloquei o charuto entre os dedos, tentei não olhar pra mesinha onde se encontrava o cinzeiro, tentei ignorar o porta-retrato colorido, a foto de um casal abraçados. Eu e Margô. Por entre a porta de vidro observei um pequeno beija-flor, o bico entre as flores penduradas na área. Murchas, quase secas. Pela falta de água? Talvez, mas a causa maior era a presente ausência de Margô.

Cruzei as pernas, continuei recostado no sofá. Em algum lugar alguém deve estar do seu lado. Teria recebido flores? Ela adora flores. A família devia estar ao seu lado, Margô detesta ficar sozinha, principalmente em dias de festa. Sempre sonhou em ter filhos, uma família grande e eu sempre lhe neguei isso. Espero que hoje ela possa ter o que eu lhe neguei.

Peguei o telefone rapidamente, tive vontade de ligar para ela, de lhe desejar felicidades, de dizer o quanto eu a amo... Mas ela ainda tem o mesmo telefone? Ela me atenderia? Acho que não, Margô deve estar em outra fase, com outras pessoas, em outro lugar.

***

Ela estava linda, os olhos – espelhos de sua alma – sempre brilhantes, mesmo em momentos como aquele. Eu sabia que por dentro ela sangrava, sabia que aquele sorriso no rosto era apenas para transformar as coisas, deixa-las mais fáceis pra mim, ela não gosta de tragédias, nunca gostou, sempre preferiu as comédias, e eu sempre gostei dos dramas.

A chuva de verão quase molhou as malas que estavam esperando por ela na porta de nossa casa, de minha casa. Ela caminhava intimamente entre os móveis, mas essa intimidade ia diminuindo aos poucos, o tempo ia nos separando pouco a pouco, não o tempo absoluto, o tempo dos relógios, dos calendários, não o tempo onisciente, falo do tempo curto de esperar o táxi chegar.

- Você sabe o dia que o nosso amor acabou?

- O dia em que o seu amor acabou?

- Eu não sou o único culpado por isso...

- Jorge, você pediu que eu fosse embora, e é isso que eu estou fazendo, para que ficar remoendo isso se o nosso final já está decidido?

- Eu pedi, mas você não ofereceu nenhuma resistência, não disse que queria ficar...

- Meu querido Jorge, eu quero o que é bom para você, se você quer que eu vá, só me resta voltar pra minha casa e esperar que a felicidade nos encontre em caminhos diferentes.

O vento frio brincava com a barra de seu vestido branco, Margô sempre gostou de branco. Naquele dia ela estava com o vestido que eu lhe dei no dia de nosso noivado. Branco, com fitinhas prateadas e flores bordadas no busto. Os cabelos cor de trigo, sempre soltos, no ritmo do vento.

***

Busquei a minha jaqueta que estava no varal, a casa parecia tão silenciosa, deserta, há tanto tempo não entrava mais ninguém em minha casa além do pequeno beija-flor, que ainda não se deu conta de que ela não vai voltar e que sem Margô as poucas plantas que ainda restam vivas vão se degenerar e não haverá ninguém para trocá-las por outras.

De repente vejo entrar pela janela uma pequena borboleta, as asas negras com pequenos riscos azuis, que lhe dividiam a asa como as estrelas dividem o céu. Ela voou sobre a sala quase sem luz, fez piruetas no ar, borboleteando por entre s móveis sem cor. Não demonstrou muito agrado pelo que via, até que viu o que de mais bonito havia na sala. Pousou suas pequenas patas sobre o retrato de Margô. Ficou parada, imóvel. Eu sabia que ela estava admirando-a, que conseguia sentir a essência daquela mulher pela expressão de seus olhos, sua boca fina sempre sorridente. A borboleta bateu asas, bateu enlouquecidamente até perder o fôlego, sem sair do lugar. Batendo palmas, encantada, tão enfeitiçada quanto eu, pela mesma Margô.

***

- Então é nisso que a nossa história se resume?

- Não existe a nossa história, existem duas histórias que se encontraram por um tempo, mas que agora vão seguir rumos diferentes. Eu não entendo você, me cobra tanto uma decisão que foi tão somente sua.

- Você sabe que isso não é verdade.

O táxi parou em frente ao portão, o taxista, velho conhecido buzinou um pouco e esperou a despedida, que ele sabia, ou imaginava, ser rápida, porém não sem dor.

Ela pegou as malas com aqueles dedos delicados, sempre com um sorriso no rosto.

- Estou pronta.

- Não me peça para levá-la até o portão...

- Se você pedir eu largo as malas e volto pra sua casa. É a sua ultima chance de me ter de volta. Assim que eu entrar naquele táxi será para sempre...

Dei um beijo em sua testa, toquei mais uma vez os seus cabelos. – Eu quero que você vá, que tenha a família que sempre sonhou. Quero que se case, que encontre um homem que lhe dê tudo o que não posso lhe dar.

Ela entrou no táxi sem dizer nada, sem uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Naquela mesma tarde ela se casou. Casou a sua vida com a morte. De braços dados com a morte ela seguiu o seu destino... Foi para sempre.

***

Deixei a borboleta acariciando o retrato na moldura de madeira envelhecida. Vesti minha jaqueta e sai caminhando a passos curtos, tranqüilos. Passei por uma floricultura, comprei rosas vermelhas, as preferidas de Margô. Será que ela acharia o buquê tão bonito quanto eu achei? Será que lhe fizeram uma visita? Sempre tão sozinha, tão abandonada entre as gramíneas e as flores artificiais, entre as lápides de pedra qualquer e as de mármore.

Coloquei o buquê de rosas vermelhas dentro do vaso de mármore, meus olhos fecharam-se para sentir o cheiro das rosas que pareciam se misturar nos cabelos dela, inundando o ar com um fluido que eu não posso definir. Passei os dedos delicadamente entre as letrinhas douradas que formavam o nome MARGÔ na lápide fria de pedra.

- Feliz Aniversário Margô!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

As Linhas

Os cabelos dourados caiam pelos ombros pálidos, mexia o copo lentamente até transformar o gelo em lâminas. A chuva da noite passada escorria pelas folhas verdes da samambaia pendurada na varanda. Caminhou lentamente até a sala, onde o telefone tocava ao lado pequena boneca de gesso, decepada. Um filete de sangue escorria pelo corpo da boneca, teve vontade de voltar ao quarto, encarar os seus piores medos. Sentou-se diante a lareira, o telefone não parava de tocar.

Deixou o copo sobre a mesinha de centro perto da mancha de sangue, escuro, coagulado. Parou diante a janela, a brisa da chuva refrescava seus pensamentos, sentia-se mais segura.

O barulho insuportável da sacola negra de lixo rompeu o fatídico silencio do quarto. Antes precisava fumar, voltou para a sala, a carteira de cigarros repousava sobre o sofá. As baforadas saiam caladas, fazendo desenhos acinzentados entre as cortinas, e então ela notou uma mancha de sangue em uma das luvas brancas. Teve vontade de rir.

***

Na noite anterior enquanto vestia as luvas sobre as mãos aveludadas conversava com o marido. Arquiteto, tão imbecil quanto as linhas retas traçadas no papel. Linhas retas? Teve vontade de rir novamente. A reta é uma ilusão, uma ilusão criada pra esconder as imperfeições da vida. A vida é uma linha torta, bêbada, são traços mal feitos, rabiscos no ar. Mas de que adianta discutir a vida? De que adianta discutir qualquer coisa, agora que não lhe sobrara mais nada.

O vestido azul lhe cobria as pernas, tinha tanta inveja das pernas da Adelaide, desde menina sempre teve as pernas mais bonitas da escola. Mas o que deu na Adelaide pra tentar reunir os colegas de classe? Na certa queria mostrar o quanto é superior, o quando evoluiu desde a formatura. Será que ela não percebe o quanto lhe doía mostrar pros outros a sua vida?

A faculdade trancada pra cuidar dos filhos, os cabelos pintados pra esconder os benditos fios brancos, o marido e as amantes. A filha uma tapada, o sangue morno como o do pai, menina aguada desde o dia em que nasceu, parece que não tem sangue.

Lembrou-se do supermercado da esquina, das compras que fazia, sempre calma, quantas vezes fora roubada no troco, mas não reclamava, não tinha o direito de reclamar, quem ela era? Uma dona de casa? Não, nem pra isso servira. Era uma coitada, uma esposa traída, uma mãe que não gostava dos filhos, mas que sorria nas fotos de aniversário. Uma Advogada frustrada? É talvez fosse isso, a frustração combinava com suas rugas indiscretas, seu cabelo embaraçado...

A sua filha era bondosa, havia herdado do pai os genes da bondade. Mas de que adianta a bondade calada? De que adianta a bondade sem coragem, um coração puro sem força pra pulsar. Foi essa bondade morta, morna que servir de adubo para nutrir a rosa negra que lhe florescia no peito.

***

- Meu marido também é advogado, é criminalista, nos conhecemos na faculdade. Justo eu que não acreditava em amor, fui pega de surpresa. E você querida? Como vai o casamento?

Por Deus, teve vontade de lhe arrancar a cabeleira negra de Adelaide, então ela não percebia que não havia felicidade nenhuma, não percebia a maneira como tentava se esconder na taça de vinho?

- Vai indo bem Adelaide, meu marido é arquiteto, está sempre cheio de projetos, não temos tendo muito tempo ultimamente, um tempo só nosso, ah você sabe, não é querida?

- Pois eu e meu marido sempre viajamos, ao menos uma vez por ano, é pra não cair na rotina. Mas me conte de seus filhos... Um casal não é?

Filhos? Pois sim. Dois débeis mentais, o menino um drogado que saiu de casa aos 15 anos e não tem feito a menor falta. Segurou o riso. A menina é uma tapada, há anos tenta se formar em arquitetura, mas é um complete idiota.

- Sim, um casal, minha filha faz arquitetura, quer seguir os passos do pai. O meu menino é independente sabe? Foi embora de casa cedo, leva a vida dele...

- Ah, minha filha também foi embora de casa, está estudando teatro no exterior...

Sei bem o tipo de vida que essas jovens levam no exterior. Sim, estudando teatro, como se eu não soubesse como é a vida dessas artistas...

Era o cumulo ficar agüentado os urros de felicidades, as historinhas divertidas. Nunca tive amigas, que idéia foi essa de ir naquele encontro idiota? Tinha que olhar pra cara daquelas insuportáveis, só o espelho já não refletia a infelicidade completa, era preciso ver a felicidade dos outros, encarar o quanto minha vida estava vazia.

***

Sentou-se no tapete do quarto, as pernas tocaram os braços do marido. Ergueu a cabeça, espiou o corte na cabeça do marido, o sangue formara uma bolsa escura, coagulada. Teve vontade de rir, começou a chorar. Onde estaria o marido agora? Podia ver um feixe de memória rompendo o ar. Seria a alma do marido. Não, certamente ele não tinha alma, não tinha sentimentos.

Na cozinha serviu-se de mais bebida e mais gelo, as finas lâminas de gelo que tinham ficado no copo ela triturara com os dentes. Caminhou vagarosamente para sala, pegou o corpo da boneca de gesso ao lado do telefone e voltou para o quarto. Do lado do marido estava a cabeça da boneca, submerso no sangue coagulado.

Lembrou-se do marido tombando, o sangue caindo lentamente pelo rosto... Calma meu amor, calma, vai acabar tudo bem...

Cobriu o marido com a sacola negra, abriu a gavetinha do roupeiro, estavam ali os seus amigos. Pegou a cartelinha de comprimidos, não conteve o riso, engoliu cada comprido como num ritual, sorveu a bebida e deitou-se ao lado o marido. Daqui um pouco a nossa menina volta da faculdade.

No teto as linhas encontravam-se, formavam os feixes de memória de uma vida que poderia ter sido feliz!