Coloquei o charuto entre os dedos, tentei não olhar pra mesinha onde se encontrava o cinzeiro, tentei ignorar o porta-retrato colorido, a foto de um casal abraçados. Eu e Margô. Por entre a porta de vidro observei um pequeno beija-flor, o bico entre as flores penduradas na área. Murchas, quase secas. Pela falta de água? Talvez, mas a causa maior era a presente ausência de Margô.
Cruzei as pernas, continuei recostado no sofá. Em algum lugar alguém deve estar do seu lado. Teria recebido flores? Ela adora flores. A família devia estar ao seu lado, Margô detesta ficar sozinha, principalmente em dias de festa. Sempre sonhou em ter filhos, uma família grande e eu sempre lhe neguei isso. Espero que hoje ela possa ter o que eu lhe neguei.
Peguei o telefone rapidamente, tive vontade de ligar para ela, de lhe desejar felicidades, de dizer o quanto eu a amo... Mas ela ainda tem o mesmo telefone? Ela me atenderia? Acho que não, Margô deve estar em outra fase, com outras pessoas, em outro lugar.
***
Ela estava linda, os olhos – espelhos de sua alma – sempre brilhantes, mesmo em momentos como aquele. Eu sabia que por dentro ela sangrava, sabia que aquele sorriso no rosto era apenas para transformar as coisas, deixa-las mais fáceis pra mim, ela não gosta de tragédias, nunca gostou, sempre preferiu as comédias, e eu sempre gostei dos dramas.
A chuva de verão quase molhou as malas que estavam esperando por ela na porta de nossa casa, de minha casa. Ela caminhava intimamente entre os móveis, mas essa intimidade ia diminuindo aos poucos, o tempo ia nos separando pouco a pouco, não o tempo absoluto, o tempo dos relógios, dos calendários, não o tempo onisciente, falo do tempo curto de esperar o táxi chegar.
- Você sabe o dia que o nosso amor acabou?
- O dia em que o seu amor acabou?
- Eu não sou o único culpado por isso...
- Jorge, você pediu que eu fosse embora, e é isso que eu estou fazendo, para que ficar remoendo isso se o nosso final já está decidido?
- Eu pedi, mas você não ofereceu nenhuma resistência, não disse que queria ficar...
- Meu querido Jorge, eu quero o que é bom para você, se você quer que eu vá, só me resta voltar pra minha casa e esperar que a felicidade nos encontre em caminhos diferentes.
O vento frio brincava com a barra de seu vestido branco, Margô sempre gostou de branco. Naquele dia ela estava com o vestido que eu lhe dei no dia de nosso noivado. Branco, com fitinhas prateadas e flores bordadas no busto. Os cabelos cor de trigo, sempre soltos, no ritmo do vento.
***
Busquei a minha jaqueta que estava no varal, a casa parecia tão silenciosa, deserta, há tanto tempo não entrava mais ninguém em minha casa além do pequeno beija-flor, que ainda não se deu conta de que ela não vai voltar e que sem Margô as poucas plantas que ainda restam vivas vão se degenerar e não haverá ninguém para trocá-las por outras.
De repente vejo entrar pela janela uma pequena borboleta, as asas negras com pequenos riscos azuis, que lhe dividiam a asa como as estrelas dividem o céu. Ela voou sobre a sala quase sem luz, fez piruetas no ar, borboleteando por entre s móveis sem cor. Não demonstrou muito agrado pelo que via, até que viu o que de mais bonito havia na sala. Pousou suas pequenas patas sobre o retrato de Margô. Ficou parada, imóvel. Eu sabia que ela estava admirando-a, que conseguia sentir a essência daquela mulher pela expressão de seus olhos, sua boca fina sempre sorridente. A borboleta bateu asas, bateu enlouquecidamente até perder o fôlego, sem sair do lugar. Batendo palmas, encantada, tão enfeitiçada quanto eu, pela mesma Margô.
***
- Então é nisso que a nossa história se resume?
- Não existe a nossa história, existem duas histórias que se encontraram por um tempo, mas que agora vão seguir rumos diferentes. Eu não entendo você, me cobra tanto uma decisão que foi tão somente sua.
- Você sabe que isso não é verdade.
O táxi parou em frente ao portão, o taxista, velho conhecido buzinou um pouco e esperou a despedida, que ele sabia, ou imaginava, ser rápida, porém não sem dor.
Ela pegou as malas com aqueles dedos delicados, sempre com um sorriso no rosto.
- Estou pronta.
- Não me peça para levá-la até o portão...
- Se você pedir eu largo as malas e volto pra sua casa. É a sua ultima chance de me ter de volta. Assim que eu entrar naquele táxi será para sempre...
Dei um beijo em sua testa, toquei mais uma vez os seus cabelos. – Eu quero que você vá, que tenha a família que sempre sonhou. Quero que se case, que encontre um homem que lhe dê tudo o que não posso lhe dar.
Ela entrou no táxi sem dizer nada, sem uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Naquela mesma tarde ela se casou. Casou a sua vida com a morte. De braços dados com a morte ela seguiu o seu destino... Foi para sempre.
***
Deixei a borboleta acariciando o retrato na moldura de madeira envelhecida. Vesti minha jaqueta e sai caminhando a passos curtos, tranqüilos. Passei por uma floricultura, comprei rosas vermelhas, as preferidas de Margô. Será que ela acharia o buquê tão bonito quanto eu achei? Será que lhe fizeram uma visita? Sempre tão sozinha, tão abandonada entre as gramíneas e as flores artificiais, entre as lápides de pedra qualquer e as de mármore.
Coloquei o buquê de rosas vermelhas dentro do vaso de mármore, meus olhos fecharam-se para sentir o cheiro das rosas que pareciam se misturar nos cabelos dela, inundando o ar com um fluido que eu não posso definir. Passei os dedos delicadamente entre as letrinhas douradas que formavam o nome MARGÔ na lápide fria de pedra.
- Feliz Aniversário Margô!

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