quinta-feira, 15 de outubro de 2009

As Linhas

Os cabelos dourados caiam pelos ombros pálidos, mexia o copo lentamente até transformar o gelo em lâminas. A chuva da noite passada escorria pelas folhas verdes da samambaia pendurada na varanda. Caminhou lentamente até a sala, onde o telefone tocava ao lado pequena boneca de gesso, decepada. Um filete de sangue escorria pelo corpo da boneca, teve vontade de voltar ao quarto, encarar os seus piores medos. Sentou-se diante a lareira, o telefone não parava de tocar.

Deixou o copo sobre a mesinha de centro perto da mancha de sangue, escuro, coagulado. Parou diante a janela, a brisa da chuva refrescava seus pensamentos, sentia-se mais segura.

O barulho insuportável da sacola negra de lixo rompeu o fatídico silencio do quarto. Antes precisava fumar, voltou para a sala, a carteira de cigarros repousava sobre o sofá. As baforadas saiam caladas, fazendo desenhos acinzentados entre as cortinas, e então ela notou uma mancha de sangue em uma das luvas brancas. Teve vontade de rir.

***

Na noite anterior enquanto vestia as luvas sobre as mãos aveludadas conversava com o marido. Arquiteto, tão imbecil quanto as linhas retas traçadas no papel. Linhas retas? Teve vontade de rir novamente. A reta é uma ilusão, uma ilusão criada pra esconder as imperfeições da vida. A vida é uma linha torta, bêbada, são traços mal feitos, rabiscos no ar. Mas de que adianta discutir a vida? De que adianta discutir qualquer coisa, agora que não lhe sobrara mais nada.

O vestido azul lhe cobria as pernas, tinha tanta inveja das pernas da Adelaide, desde menina sempre teve as pernas mais bonitas da escola. Mas o que deu na Adelaide pra tentar reunir os colegas de classe? Na certa queria mostrar o quanto é superior, o quando evoluiu desde a formatura. Será que ela não percebe o quanto lhe doía mostrar pros outros a sua vida?

A faculdade trancada pra cuidar dos filhos, os cabelos pintados pra esconder os benditos fios brancos, o marido e as amantes. A filha uma tapada, o sangue morno como o do pai, menina aguada desde o dia em que nasceu, parece que não tem sangue.

Lembrou-se do supermercado da esquina, das compras que fazia, sempre calma, quantas vezes fora roubada no troco, mas não reclamava, não tinha o direito de reclamar, quem ela era? Uma dona de casa? Não, nem pra isso servira. Era uma coitada, uma esposa traída, uma mãe que não gostava dos filhos, mas que sorria nas fotos de aniversário. Uma Advogada frustrada? É talvez fosse isso, a frustração combinava com suas rugas indiscretas, seu cabelo embaraçado...

A sua filha era bondosa, havia herdado do pai os genes da bondade. Mas de que adianta a bondade calada? De que adianta a bondade sem coragem, um coração puro sem força pra pulsar. Foi essa bondade morta, morna que servir de adubo para nutrir a rosa negra que lhe florescia no peito.

***

- Meu marido também é advogado, é criminalista, nos conhecemos na faculdade. Justo eu que não acreditava em amor, fui pega de surpresa. E você querida? Como vai o casamento?

Por Deus, teve vontade de lhe arrancar a cabeleira negra de Adelaide, então ela não percebia que não havia felicidade nenhuma, não percebia a maneira como tentava se esconder na taça de vinho?

- Vai indo bem Adelaide, meu marido é arquiteto, está sempre cheio de projetos, não temos tendo muito tempo ultimamente, um tempo só nosso, ah você sabe, não é querida?

- Pois eu e meu marido sempre viajamos, ao menos uma vez por ano, é pra não cair na rotina. Mas me conte de seus filhos... Um casal não é?

Filhos? Pois sim. Dois débeis mentais, o menino um drogado que saiu de casa aos 15 anos e não tem feito a menor falta. Segurou o riso. A menina é uma tapada, há anos tenta se formar em arquitetura, mas é um complete idiota.

- Sim, um casal, minha filha faz arquitetura, quer seguir os passos do pai. O meu menino é independente sabe? Foi embora de casa cedo, leva a vida dele...

- Ah, minha filha também foi embora de casa, está estudando teatro no exterior...

Sei bem o tipo de vida que essas jovens levam no exterior. Sim, estudando teatro, como se eu não soubesse como é a vida dessas artistas...

Era o cumulo ficar agüentado os urros de felicidades, as historinhas divertidas. Nunca tive amigas, que idéia foi essa de ir naquele encontro idiota? Tinha que olhar pra cara daquelas insuportáveis, só o espelho já não refletia a infelicidade completa, era preciso ver a felicidade dos outros, encarar o quanto minha vida estava vazia.

***

Sentou-se no tapete do quarto, as pernas tocaram os braços do marido. Ergueu a cabeça, espiou o corte na cabeça do marido, o sangue formara uma bolsa escura, coagulada. Teve vontade de rir, começou a chorar. Onde estaria o marido agora? Podia ver um feixe de memória rompendo o ar. Seria a alma do marido. Não, certamente ele não tinha alma, não tinha sentimentos.

Na cozinha serviu-se de mais bebida e mais gelo, as finas lâminas de gelo que tinham ficado no copo ela triturara com os dentes. Caminhou vagarosamente para sala, pegou o corpo da boneca de gesso ao lado do telefone e voltou para o quarto. Do lado do marido estava a cabeça da boneca, submerso no sangue coagulado.

Lembrou-se do marido tombando, o sangue caindo lentamente pelo rosto... Calma meu amor, calma, vai acabar tudo bem...

Cobriu o marido com a sacola negra, abriu a gavetinha do roupeiro, estavam ali os seus amigos. Pegou a cartelinha de comprimidos, não conteve o riso, engoliu cada comprido como num ritual, sorveu a bebida e deitou-se ao lado o marido. Daqui um pouco a nossa menina volta da faculdade.

No teto as linhas encontravam-se, formavam os feixes de memória de uma vida que poderia ter sido feliz!

3 comentários:

  1. Bah ficou muito bom Luan...
    Parabéns!! o blog esta ótimo...
    Adorei...

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  2. ficou otiimo luan :D parabens!

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  3. Maravilhoso! Alguém com tua idade, com esses pensamentos. Adorei

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